Aluguei um apartamento de 1 dormitório no Bexiga, bairro boêmio de São Paulo. A vista não é muito boa, devido a proximidade com um prédio de estilo modernista (a construção está tão próxima que sou capaz de furtar a bonbonnière do vizinho num esticar de braço). O apartamento é pequeno, mas o espaço é satisfatório para meus propósitos. A única coisa que realmente me incomoda é a Klosettbecken, a privada do banheiro. Isto porque o aparelho sanitário é verde musgo. Não compreendo como alguém em sã consciência é capaz de adquirir tamanha aberração. Será que indica algum fetiche do locador? Ainda estou me adaptando à cidade, ao barulho, à poluição, vez em quando vou ao cinema, quando muito, algumas saidinhas para ver a mulherada no boteco do Osmar. Mas evito sair de casa, por enquanto prefiro a solidão. Pois bem, esta manhã, antes de minha visita tradicional à “padoca” da esquina, encontrei no corredor minha vizinha do apartamento 512. Uma senhora muito simpática, entre 60 e 70 anos, aparentemente solitária. Tomamos o mesmo elevador rumo ao mesmo destino. Naturalmente (para os não mal-humorados), começamos uma conversa:
- Meu filho, está gostando da vizinhança?
- Para ser sincero...
- Ana.
- Para ser sincero, Fräulein Ana , ainda não conheci nenhum vizinho.
- Mas deve...
- Arthur.
- Mas deve Arthur! É uma vizinhança muito boa.
- Tentarei Dona Ana!
- O senhor mora sozinho? Não ouço nenhuma voz de seu apartamento...
- Moro sim, estou...
- Faz muito bem meu filho, estou viúva já faz dez anos e não troco minha vidinha solitária por nada.
- Vamos dizer que estou...
- Eu adoro a solidão! Tenho uma liberdade que nunca tive... Apenas quando estamos só é que estamos mais próximos da liberdade, não é meu filho?
- Talvez por isso que se vende tanto apartamento de 3 dormitórios com 4 banheiros...Vou ficar por aqui dona Ana, comer um pão na chapa.
- Faz bem meu filho! Passe em casa para tomar um café mais tarde!
- Será um prazer!
Eis o acaso: Mestre da arte régia de tornar claro o quanto, em oposição ao seu favor e à sua graça, todo o mérito é impotente e sem valor. O acaso é um poder maligno, no qual se deve confiar o menos possível.
A. S.
P.S: JF, você é mesmo um babaca!
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